“12h30min cheguei em casa cansada e estressada por causa do lance todo da escola. Só queria deitar e dormir. Não estava em um dos meus melhores dias. Assim que cheguei, vi um bilhetinho na porta escrito: “filha, saímos para resolver as papeladas do apartamento da sua irmã. Vamos chegar tarde, pois depois iremos à casa da sua tia. Sua comida já está pronta, tranca tudo e não deixe ninguém entrar. Qualquer problema liga no celular. Beijo, amamos você.” Ótimo, ficar sozinha. Era tudo o que eu estava precisando. Guardei o papel, e fui almoçar. Depois, fiquei vendo um pouco de TV. Eu não tinha mais nada para fazer, e então fiquei deitada no sofá encarando o teto, pensando, e pensando. Eu estava me sentindo tão, mas tão estranha. Cansada. Exausta, pra ser mais sincera. Eu queria chorar. Queria ser fraca a ponto de desabar no choro. Queria aproveitar que ninguém estava em casa, e queria chorar todas as lágrimas que um dia eu guardei. Nunca quis tanto chorar como eu queria naquele momento. Mas eu não conseguia. E isso estava me deixando angustiada. As lágrimas não desciam.. E eu sentia. Sentia que precisava esvaziar um pouco. Botar tudo pra fora. Vontade de chorar era o que não faltava. Mas porque as lágrimas simplesmente não desciam? Eu estava quase me matando, quando aconteceu.. Começou a chover. Começou a chover e eu me senti aliviada. Você sabe como eu amo chuva, como eu amo frio.. De repente começou a cair um temporal. Eu não sei por que, mas eu senti como se aquela fosse uma mensagem. Como se Deus olhasse para mim lá de cima e dissesse “Trago-te a chuva para ajudar-te a jogar fora grande parte dessa dor de dentro de você.” E pela primeira vez eu não me senti sozinha. Foi então que eu comecei a chorar. Chorar para valer. Chorei por tudo. Por mim. Pelas minhas dores. Pelas minhas perdas. Chorei pela minha vida. Chorei pelo passado. Chorei pelo presente. Chorei por medo. Chorei por angústia. Chorei por insegurança. E o principal de todos, chorei pela ausência. Pela distância. Chorei pela minha lamentável existência, e por tudo o que eu carregava. Eu desabei. Desabei como nunca desabei antes na minha vida. E sinceramente? Eu não estava me importando. Eu queria. Queria colocar tudo para fora. E quanto mais a chuva lá fora caia, as lágrimas insistiam em escorrer pelo meu rosto. Você pode pensar que é exagero, eu te juro que fiquei chorando por umas 3 horas seguidas. Ou mais, se duvidar. Até que resolvi ir pra cama, estava muito cansada.. Mas eu ainda não havia parado de chorar, como a chuva ainda não havia parado de cair. Engraçado, não é? Como a chuva se parece comigo.. O céu.. É como se ele não agüentasse, e explodisse em lágrimas, molhando o mundo com sua chuva. Os trovões, a dor, a raiva.. Tanta semelhança, e isso só me faziam chorar ainda mais. Eu não me sentia sozinha, embora não tivesse ninguém ali comigo. Estranho, não é? Eu sei. Foi então que, enquanto eu estava deitada, olhando a chuva cair perfeitamente bela pela janela, eu acabei pegando no sono.. - ou achando que tinha dormido - e então eu pude ver claramente. Eu estava no corredor do quintal da minha casa. Ainda chovia, chovia muito forte. Eu estava lá fora, no meio da chuva, chorando cada vez mais. Já era possível ouvir meus soluços. Eu estava sentada no chão, com os braços envoltos das pernas. A chuva batia em meu corpo, e eu me sentia mais leve. Estava muito frio, embora eu me sentisse quente. O chão gelado e ainda sim parecia que eu estava pisando em um poço de água fervente. Foi então, que eu ouvi. Ouvi sussurrarem meu nome. Eu ouvi tão baixinho, mas tão baixinho, um chamado em meu ouvido: ”Minha pequena. ”. E então senti todo o meu corpo se arrepiar. E então meu coração soube. Soube quem era. Eu reconhecia aquelas sensações que meu corpo sentia. Que minha alma tanto clamava.. Eu estava com a cabeça abaixada entre os joelhos, ainda abraçando minhas pernas. Não havia levantado a cabeça. E então ouvi mais uma vez um sussurro. Foi então que eu ergui minha cabeça e pude ver. Era ele. Ele estava parado na minha frente, com aquele sorriso encantador que fazia meu coração bater mais forte. Ainda chovia forte. Ele não estava “completamente” ali. Digo.. Não era como ver uma pessoa normal á sua frente. Sua imagem estava meio apagada. E havia algumas luzes ao redor dele. Eu não sei lhe explicar. Mas era a imagem mais maravilhosa que um dia meus olhos presenciaram. Ele sorriu e ergueu sua mão em seguida para eu levantar. Eu a peguei, sentindo todos os pelos do meu corpo se arrepiar. Levantei, em seguida e sorri em resposta. E ele sorriu novamente. Com tamanha beleza exposta em minha frente. Começamos a dançar no meio da chuva, e às vezes eu soltava várias risadas no meio da situação em que estávamos. Ele tinha sua mão em minha cintura, e a outra entrelaçada com a minha. A minha outra mão se encontrava nos seus ombros. Às vezes, na batida da música, ele me rodopiava. Tudo parecia tão surreal.. Mas porque eu sentia como se estivesse mesmo acontecendo? Foi então que, me deixando levar por esses pensamentos, que eu senti meus olhos marejarem novamente. E ele percebendo isso, passou a mão pelo meu rosto - que ainda estava molhado por causa da chuva - e sussurrou “Não chore minha pequena!” e abriu aquele sorriso encantador novamente em teu rosto. Eu não consegui responder nada, não tinha forças para formular palavras em minha mente. Então, eu apenas assenti, sorrindo sem mostrar os dentes. Foi quando ele falou novamente comigo. “Eu estou aqui com você, minha pequena. Por nós!” eu não havia entendido o porquê do “nós”. E antes mesmo de eu poder perguntar, ele abriu outro sorriso e me rodopiou novamente. Mas dessa vez ele se soltou de mim, o que me fez virar até o outro lado. E aconteceu o que eu menos esperava. Ele estava lá. Ele juntou nossos corpos, fazendo-nos dançar de acordo com a música. Não sei lhe explicar o que senti quando sua mão foi de encontro com a minha. Senti como se houvesse sido atingida por um raio. Estava queimando, estava dando choques elétricos.. Minha alma se sentia completa. Finalmente. Meu coração estava aquecido, e eu não sentia mais dor. O mundo parou, e nem a chuva que ainda caia. “Minha pequena.” foram as únicas palavras que ele disse, seguido de um sorriso maravilhoso. Se eu disser para você que meu coração começou a bater aceleradamente, que meu corpo todo vibrava com suas batidas, não pense que é exagero. Eu podia ouvir. Toda minha pulsação parecia estar mais forte. Eu teria caído no chão com aquele sorriso, e não fosse pelas suas mãos firmes em minha cintura enquanto dançávamos. “Deus, eu estava morta?” Era tudo o que eu pensava. Se eu tivesse morrido, nunca pensei que a morte fosse tão boa. “Eu sonhei tanto com esse momento” ele sussurrou, com sua boca perto do meu ouvido. Eu não podia acreditar que o tinha ali. Tão perto. A pessoa que eu mais pensei ser inalcançável estava ali, dançando no meio da chuva. Comigo. É isso. Eu morri e estava no céu. “Por favor, não desista de nós.” eu não conseguia pensar em nada. Suas palavras entravam em minha mente, e beiravam por lá. Eu não sei lhe explicar o que eu estava sentindo. Era algo que eu jamais imaginei sentir. Deus.. Eu não sei nem dizer se um dia um ser humano se sentiu assim antes. Era tão bom. Tão confortante. “Eu sempre estarei com você, minha pequena. Sempre!” foi o que ele disse, e eu senti seu rosto se aproximar do meu. Sua respiração batendo em meu rosto, e então eu fechou os olhos. Quando fechei os olhos, senti meu corpo dançar novamente, e ser rodopiado mais uma vez. Assim que abri os olhos, eu estava ali, sozinha. Sem ele. Mas minha mão estava levantada, e eu senti. Pude sentir as mãos dele ali. Senti seus lábios macios, quentes, sobre ela. Ele havia beijado minha mão. E eu estava com ela ali, estendida, mesmo sem poder vê-lo. Mas ainda podia senti-lo. Senti-lo tão perto que meu coração pareceu parar. Eu. Eu estava acordada. Deus, o que havia acontecido? Eu não estava, mas na cama. Estava lá, no quintal, exatamente no mesmo local aonde eu havia sonhado. - ou pensado que estava sonhando - eu estava lá. Estava lá e a chuva ainda caia, e eu podia sentir.. Podia sentir a alma do homem da minha vida, tão, tão perto.. Eu juro que não estava entendendo mais nada. No começo eu achei que estava sonhando, pois eu não me lembrava de ter levantado e ido até o quintal. Eu pensei ter dormido. Pensei ter sonhado com aquilo. Mas não. Eu estava lá. E eu sabia que aquela sensação de que estava mesmo acontecendo, não era falsa.. “Apenas uma realidade distante demais.” lembra de quando lhe disse isso? Era isso que vinha em minha mente. E eu não podia acreditar.. Eu não sabia se havia realmente acontecido, ou se foi apenas minha imaginação que se deixou levar. Mas no fundo, eu não estava me importando. Ele estava ali. E eu ainda podia senti-lo. Minha alma se sentia completa. Meu coração, que antes quebrado, parecia sorrir. Quem o veria batendo daquele jeito, jamais diria que um dia ele foi estraçalhado. Se fora um sonho ou apenas minha imaginação projetando-os? Eu não sei. Mas eu não me importo com isso. Eles estavam aqui. Eu tive o meu momento e aquilo que eu senti? Não pode ser comparado á nada nesse mundo. Foi à melhor sensação que um ser humano poderia sentir. Sentir-se completo. Sentir-se como se sua alma estava no caminho certo; como se a vida estivesse sorrindo para você pela primeira vez. Ganhei minha vida com aquele momento, isso é com toda certeza.